México: do nacional-desenvolvimentismo à virada neoliberal (de Cardenas a Miguel de la Madrid)

A partir dos anos 1930, no governo de Lazaro Cardenas (1934-1940), o México inicia um processo de modernização de sua economia e sociedade. Cardenas, que em 1913 aderiu à Revolução Mexicana, em 1928 tornou-se governador no estado de Michoacán, em 1931 passou a ser o presidente do Partido Revolucionário Nacional (PRN), que se posicionou como o herdeiro da Revolução de 1910.

Uma das demandas enfrentadas por Cardenas era uma ampla reforma agrária, que distribuía terras aos camponeses (de maneira comunitária, com o intuito de fortalecer seus laços). O movimento operário nesse período viu o governo incentivar a criação de sindicatos e, a partir daí, a Confederação de Trabalhadores Mexicanos (“CTM” em espanhol) passou a existir. Trabalhador e direitos sociais foram garantidos aos trabalhadores. Cárdenas, com o argumento de que as empresas britânicas e norte-americanas impunham condições de trabalho e salários muito ruins para o trabalhador mexicano, nacionalizaram a riqueza subterrânea no país, entregando ao Estado o controle da exploração e produção de petróleo através da Petroleos Mexicanos ( PEMEX). Apesar da oposição dos EUA e do Reino Unido, o contexto da Segunda Guerra Mundial e a necessidade de fornecer energia às tropas aliadas reduziram o questionamento sobre essa política nacionalista mexicana. O cenário era favorável ao México e sabia como aproveitar ao máximo.

O presidente mexicano agiu para centralizar o poder e atribuir ao Estado a gestão do desenvolvimento capitalista nacional. Talvez tenha sido a primeira experiência, em termos reais, de um governo nacional-desenvolvimentista na América Latina. Entre as décadas de 1970 e 1980, a redemocratização e o neoliberalismo começaram a liderar na política e na economia do subcontinente. O PRN foi transformado no Partido Revolucionário Mexicano (PRM) em espanhol, com o objetivo de aproximar as massas do partido, o que seria o embrião do futuro partido único. Embora Cardenas acreditasse na existência da luta de classes e assumisse o lado dos trabalhadores, a centralização do Estado e a gestão dos interesses sociais por ele realizados colocaram as ações de Cardenas perto do modelo corporativista desenvolvido inicialmente pelos governos fascistas europeus.

Como em outras experiências desenvolvimentistas na América Latina, dentre as quais a melhor história de sucesso é o Brasil, o período que vai de 1929 a 1979 foi de enorme crescimento econômico para a economia mexicana. Esse período passou a ser entre a quebra do mercado de ações em Nova York em 1929, que representou o fim do ciclo de expansão baseado em uma enorme especulação financeira.

Os cinquenta anos seguintes assistiram à consolidação e dominância do paradigma keynesiano e, no caso latino-americano, a partir dos anos 50, do estruturalismo baseado em ideias desenvolvidas na agência da ONU, CEPAL (“Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe”). Caribe “traduzido para o acrônimo espanhol e português). Além das propostas de intervenção governamental defendidas por Keynes, o estruturalismo de autores como Raul Prebisch e Celso Furtado destacaram a dinâmica “centro-periferia”, na qual o centro representa os países capitalistas avançados (EUA, Europa Ocidental e Japão) e a periferia maior (em território e população) e mais tarde parte do mundo. O centro abriga as capitais, a organização empresarial e pública e a tecnologia que a periferia não possui. O Estado, portanto, deve ser o ator principal na superação do hiato econômico.

O economista Wilson Cano, professor do Instituto de Economia da Universidade Brasileira de Campinas (UNICAMP), fez uma análise muito relevante da história da evolução da economia mexicana no livro “Soberania e Economia Política na América Latina” (“Soberania e Política Econômica na América Latina, assim como análises de outros casos, assim como o título aponta, de outras nações latino-americanas. Utilizaremos o trabalho do professor Cano para apoiar a síntese deste artigo. Segundo ele, o período de 1929-1979 pode ser dividido em três: “1) aquele que vai da crise de 1929 ao“ Cardenismo ”; 2) a que abrange 1939-1970, ou seja, do intenso período de substituições de importações; 3) o período de 1970-1979, em que o curso da economia política sofre uma virada decisiva ”. Em relação ao primeiro período, ainda segundo o mesmo autor “A grande depressão, para o México, já havia começado em 1927, dada a desaceleração da economia norte-americana. No período o ponto mais alto alcançado no PIB foi em 1926 e o ​​menor em 1931: entre os dois pontos a queda acumulada no PIB foi de 36%, talvez a mais acentuada da região, e 75% das exportações mexicanas foram minérios, dramaticamente afetada pela crise e, em particular, pelo duplo protecionismo dos EUA durante a depressão ”(CANO, p. 400.) Com a eleição de Cardenas, o México vive o começo de um novo período. Segundo Cano, “os resultados para o período de 1933-1939 foram excepcionais: a taxa média de crescimento do PIB foi de 5,4% e na indústria de transformação de 8,7%, aumentando sua participação no PIB para 16%” (CANO , p. 403).

Cano explica também que, depois do período de Cardenas (que terminou em 1940), a política mexicana afastou-se das posições revolucionárias e mais radicais, retornando a posições mais conservadoras. Se bem pudesse manter uma grande continuidade na condução das políticas econômicas e certa eficiência, isso levaria a sociedade a pagar o preço do autoritarismo, com o aumento do poder discricionário do Estado, o oficialismo partidário e o aumento da corrupção. Uma diferença, pelo menos quando se trata do uso mais intensificado da soberania nacional, é vista no período 1964-1976, nos governos de Diaz Ordaz e Echeverría, em que o México reafirma posições mais fortes na política externa (por exemplo, não quebrar relações com Cuba em 1964) e na política econômica com uma política de mexicanização da economia a partir do final da década de 1960. Ao mesmo tempo, porém, a repressão interna aumentou ”(CANO, p. 403-404).

Uma questão relevante foi o papel do controle e da arbitragem dos interesses sociais desempenhados pelo Partido Revolucionário Institucional: “até então o PRI era o instrumento de negociação e representação de interesses para as diversas classes sociais, fonte de recrutamento de pessoal político profissional, gerente de demandas sociais – através de uma mediação client-like -, e um dispositivo para a legitimação eleitoral do governo. Sua rede política nacional se misturaria com os serviços públicos, nos níveis federal, estadual e municipal, e a crescente ação do Estado na economia permitia – além do visível avanço da industrialização – a reprodução econômica e social de suas elites, principalmente os industriais e financeiros. A industrialização e a urbanização produziram crescimento nas cidades, crescimento de uma nova classe média e de uma massa de empregos informais. Por outro lado, a modernização dos serviços públicos e sua descentralização continuada encolheram o papel da mediação clientelista. Ambos os fenômenos prejudicaram parte do controle do PRI a serviço das demandas sociais e, mais importante, no controle das eleições. Conseqüentemente, se nas eleições federais de 1968 o PRI obteve 86% dos votos, em 1979 foi de 70%, perdendo a eleição em muitos distritos urbanos ”(CANO, p. 407-408).

O Presidente Echeverria (1970-1976) deu continuidade ao nacionalismo econômico e buscou acordos comerciais com outros agentes fora da órbita dos EUA. Foi o último período em que a industrialização foi o eixo direcionador da política econômica, mesmo que o petróleo já tivesse começado a ter uma importância econômica maior. Uma mudança importante foi que os poderes impulsionadores da economia deixaram de ser políticos, mas sim jovens economistas, geralmente pós-graduados nos EUA e seguidores do conservadorismo econômico. Isso se tornou a tecnocracia do Banco Central (Banco do México) e do Departamento do Tesouro. No Escritório para o Patrimônio e no Nacional Financiera (o banco de desenvolvimento), a maior parte era de pessoal keynesiano-CEPAL, desenvolvimentistas (CANO, p. 408).

O governo que marca o divisor de águas para o neoliberalismo virar e se divorciar do PRI como partido foi o de Lopez Portillo (1976-1982). Seu governo era transicional entre uma política mais nacionalista e outra mais ligada aos EUA, mais conservadora, com acordos com o Fundo Monetário Internacional e colocando como principal eixo de política econômica a opção pelo petróleo, com uma enorme dívida externa no país. esforço. Foi o fim do processo de substituição de importações e o início de uma política de liberalização (CANO, p. 408-409). Pode-se dizer que foi o momento em que o México renunciou a uma ativa política industrial e coordenação e incentivos estatais para a constituição de um complexo industrial diversificado para aceitar o papel de produtor de matérias-primas para exportação (principalmente petróleo) e, com a assinatura do O NAFTA, em 1994, consolidou a opção pela indústria maquiladora, na qual a indústria norte-americana, principalmente, aproveita o diferencial de mão-de-obra para, basicamente, montar peças provenientes dos EUA para reexportá-las ao vizinho rico do norte. A indústria maquiladora começou em 1966, desde as concessões fiscais dos EUA até a América Central e ao México, e modificações na legislação mexicana (CANO, p. 413-414).

A década de 1980, assim como para o resto da América Latina, foi um período de crise econômica com o PIB sofrendo uma queda expressiva e retornando aos níveis de 1981 em 1988; alta inflação, desvalorização da moeda e problemas com a dívida do país (que, como os demais países latino-americanos, passa por um grande surto diante do choque da taxa de juros norte-americana promovido pelo presidente do Federal Reserve na época, Paul Volcker). O governo de Miguel de la Madrid, que tomou posse em novembro de 1982, reforçou a virada à direita no PRI. Isso tem efeitos políticos importantes, fazendo do PRI um representante do partido apenas das elites econômicas do país. Mais uma vez, nas palavras de Cano, “a prolongada crise econômica deteriorou ainda mais a situação política no país, e a persistência da postura política do PRI promoveu uma forte divisão interna e o lançamento, em 1987, de sua corrente democrática, liderada por Cuahtemoc Cardenas (filho do ex-presidente Cardenas). O PRI se distanciou cada vez mais de suas origens camponesas e operárias, dedicando-se à elite, representantes de empresas e do sistema financeiro. Portanto, a política econômica, depois de alguns ensaios heterodoxos, tomaria rumos da ortodoxia e do neoliberalismo. Ainda assim, as dificuldades políticas forçaram a execução de uma reforma política em 1986, que abriria uma pequena abertura para a vida política dos partidos remanescentes ”(CANO, p. 415-416).

O México, desde o século XIX, teve sua economia fortemente ligada à economia dos EUA, país contra o qual o México travou a guerra e a quem perdeu parte de seu território. A “expansão para o oeste” dos Estados Unidos impôs essa perda, mas também integrou o território de ambos os países por meio de ferrovias. O crescimento dos investimentos estrangeiros em mineração também beneficiou a economia mexicana desse período. A transição discutida neste artigo, entre as décadas de 1930 e 1980, levou o México a, nos quase trinta anos posteriores a esse período, aplicar estritamente as prescrições neoliberais. O PRD, que substituiu o PRI nos anos de 2000, não mudou a política econômica. O resultado tem sido as baixas taxas de crescimento econômico e a crescente violência, especialmente a perpetrada pelos cartéis de drogas. A vitória, neste ano, do esquerdista Andres Manuel López Obrador (AMLO) traz esperança ao povo mexicano, na esperança de uma reorientação das políticas após décadas de neoliberalismo. A relação com os EUA, onde vivem milhões de mexicanos e para onde são enviados três quartos das exportações, é muito sensitiva. AMLO, antes de tomar posse, teve que lidar com a renegociação do NAFTA defendida por Donald Trump. A assimetria de poder com o vizinho ao norte é um problema estratégico para o México e certamente limita suas opções, mas ainda assim, a total adesão de suas elites ao conservadorismo econômico e o abandono de qualquer idéia de projeto nacional (como tem acontecido e descrito no presente artigo, entre as décadas de 1930 e a segunda metade da década de 1970) com o fomento de uma indústria efetivamente local (e não apenas montadora de peças produzidas no exterior) e políticas socialmente inclusivas levaram o país à difícil situação social e econômica em que se encontra. López Obrador, em um cenário muito diferente do de Cardenas, terá que propor e executar novas políticas para o desenvolvimento do México.

Referencia: CANO, Wilson. Soberania e Política Econômica na América Latina. São Paulo: Editora Unesp, 1999