O golpe parlamentar, a inelegibilidade de Lula e as eleições de 2018

A derrota nas eleições presidenciais de 2014 (a quarta consecutiva) por uma pequena margem (de cerca de 3%) para o principal partido de esquerda no Brasil, o Partido dos Trabalhadores (PT), não foi um resultado aceita pela direita brasileira. Como foi comentado no artigo anterior, um tempo após o segundo turno nas eleições alguns instaram por um impeachment e o candidato derrotado, o senador Aécio Neves do PSDB (sigla que representa em português o partido na direita que polariza a política no Brasil em oposição ao PT desde as eleições de 1994), pediu uma recontagem. Esse expediente não obteve êxito e o Tribunal Superior Eleitoral manteve o resultado, isto é, a vitória de Dilma Rousseff. Uma grande articulação entre políticos, setores e mídia promoveu uma grande campanha pelo depoimento de Dilma, que aconteceu pouco mais de um ano depois de seu segundo dia de posse, em janeiro de 2015. Dilma perdeu o apoio popular quando, durante seu segundo mandato, implementou a política Criticou em campanha: a política fiscal austera que acaba penalizando principalmente os mais vulneráveis.

Simultaneamente, a Operação Lava Jato é uma ferramenta para criminalizar o PT (o partido político mais marcado pela operação) e o ex-presidente Lula. O favorito para as eleições de 2018, Lula, foi preso em abril deste ano, seis meses antes da corrida. Durante o governo de Lula, uma lei conhecida como “Clean Record Law” foi aprovada, uma lei segundo a qual os candidatos condenados em segunda instância são considerados inelegíveis, e disse que a lei teoricamente o impediria de concorrer ao cargo. Teoricamente, porque os políticos concorreram às eleições municipais no Brasil em 2016 e muitos deles, prefeitos eleitos, conduziram as eleições sub judice e tiveram suas eleições reconhecidas posteriormente. Provavelmente não é o caso de Lula, que não teve uma análise judicial imparcial em parte das acusações dirigidas a ele, fato reconhecido por muitos jurados no Brasil e no exterior. Ainda assim, o “roteiro” para as eleições de 2018 não foi o que a direita esperava.

Lula foi registrado como candidato, mesmo que ele seja preso. As pesquisas mais recentes na segunda quinzena de agosto mostram um crescimento de 4 a 5 pontos para sua candidatura. O ex-prefeito da maior metrópole do Brasil, São Paulo, Fernando Haddad, seu candidato e vice-presidente, provavelmente será levado a ocupar o cargo de Lula quando o Tribunal Superior Eleitoral declarar que Lula não é elegível. O Comitê de Direitos Humanos da ONU, do qual o Brasil é signatário, entendeu que os direitos políticos de Lula estão sendo violados e determinou que o país permitisse sua candidatura. Parece que os Tribunais Superiores do Brasil, que tiveram um comportamento muito controverso em suas interpretações da lei, não aceitarão esta decisão vinda da ONU.

As pesquisas indicam um alto potencial de transferência de votos de Lula para Haddad. O último tem 4% nas pesquisas dos principais institutos, porém, quando apresentado como “candidato de Lula”, passa a ter 15%, segundo o estudo feito pelo banco de investimentos XP, atrás apenas do candidato de extrema direita. , o militar e deputado federal Jair Bolsonaro, com 22% no cenário sem Lula. O crescimento do apoio de Bolsonaro deveu-se, em grande parte, à crise política e aos escândalos de corrupção que desmoralizaram os partidos tradicionais, inclusive o PSDB, do candidato Geraldo Alckmin, atualmente entre 5% (cenário com Lula) e 9% (cenário sem Lula). ). A esperança para o PSDB é que Alckmin, que tem o maior apoio entre os partidos políticos e o maior tempo de campanha na mídia (no Brasil o tempo de campanha na rádio e na tv seja dado de acordo com a representatividade dos partidos no parlamento) será uma plataforma de lançamento para a sua candidatura. Como o sistema brasileiro elege simultaneamente o presidente, deputados federais, senadores, governos e deputados estaduais, as alianças no nível estadual não necessariamente repetem as alianças no nível nacional. E nos estados, especialmente na região nordeste (a mais pobre do Brasil, aquela com maior fatia de eleitores do PT, especialmente cuidada nos governos do partido), muitos dos ingressos dos partidos que apóiam Alckmin, formalmente, estão alinhados com Lula. ou aquele que ele indica. Portanto, a “desconstrução política” que a direita pretendia empreender contra Lula e o PT, provavelmente esperando a enxurrada de acusações, a longa e intensa campanha negativa na mídia, a prisão de membros do partido, inclusive a do próprio Lula, faria o apoio a ambos cair, invalidando o partido e seu líder na corrida, não ocorreu. Lula, como tem sido apontado, viu seus números nas pesquisas crescerem e o PT é a parte preferida de 29% dos brasileiros, mais do que a soma de todos os partidos restantes.

Outro fator importante é a crise econômica. Foi espalhado pelo país a idéia de que o depoimento de Dilma seria a solução para os problemas econômicos. Isso, claro, não se tornou realidade. Na verdade, antes do impeachment, a economia já havia começado a dar sinais de que estava em recuperação, que foram travados pela crise política. A economia continuou caindo, caiu em mais de sete por cento no período de dois anos de 2015-2016. Em 2017 e 2018, o crescimento anual será de pouco mais de 1%, que é de propriedade da agricultura de exportação, o único setor com riqueza econômica. Se dependesse apenas da economia doméstica, a vigilância seria de estagnação. Diferentemente do pleno emprego de 2014, quando o primeiro mandato de Dilma deveria terminar, as altas taxas de desemprego são estáveis, as pessoas perderam seu poder de compra e não têm perspectiva de melhora no atual governo. O considerável agravamento da situação econômica é sentido, especialmente quando se trata de classes mais baixas, que olham para trás com saudade dos bons tempos dos governos do PT até 2014.

Alguns já consideram Fernando Haddad, substituto virtual de Lula, o favorito na corrida presidencial. A questão é quando Lula poderá transferir seu prestígio para Haddad (que foi boicotado pela grande mídia e não aparece nos noticiários, nem entrevistas nem debates como representante de Lula, apesar dos pedidos do PT). Mas, ao contrário do que muitos pensaram, Lula e o PT estão vivos nessa disputa.