O novo governo de extrema direita no Brasil

Jair Messias Bolsonaro, veterano capitão do Exército que venceu a segunda rodada das eleições presidenciais brasileiras (em 28 de setembro de 2018), indicou cada vez mais claramente como será o futuro governo do Brasil a partir de 1º de janeiro de 2019. Ao anunciar os nomes de seus ministros de gabinete e através de suas declarações, juntamente com os seus, ele vem apontando para as intenções e para o tipo de atitude que veremos no governo Bolsonaro.

A coalizão sócio-política que apóia este projeto reúne militares, evangélicos, ruralistas, empresários e ex-profissionais do mercado financeiro. O principal ministro do futuro governo, o ministro da Economia, é o financista Paulo Guedes, um ultraliberal com doutorado na Universidade de Chicago. A reforma da seguridade social, menos os direitos trabalhistas (o futuro governo já anunciou o fim do Ministério do Trabalho octogenário), as privatizações e os ajustes fiscais, juntamente com a minimização do Estado, provavelmente serão enfatizados no direcionamento da economia, uma continuação para o Governo Temer. Um núcleo de empresas estatais (a petrolífera Petrobras, a empresa de energia Eletrobrás, os bancos públicos federais) pode ser mantido por escolha do presidente e pela influência da ala militar do governo, que é composta de sete ministros, até mais do que nos governos durante o período da ditadura militar (1964-1985).

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araujo, vem se destacando da tradicional diplomacia brasileira, que, sendo mais liberal ou estatista dependendo do governo, sempre se baseou no pragmatismo. O futuro chanceler tem defendido um alinhamento rigoroso com os Estados Unidos em defesa do que ele considera “valores ocidentais”. A esquerda e a direita liberal seriam “globalistas”, anti-nacionais. Acordos multilaterais seriam a expressão desse globalismo, e o governo Bolsonaro já declarou que os acordos bilaterais serão priorizados. A adesão aos EUA e ao governo Trump nesse sentido (o filho do presidente eleito, o deputado Eduardo Bolsonaro, em viagem aos EUA, portou um boné com o trunfo “Trump 2020”, em clara alusão ao campanha eleitoral do presidente republicano), e a sinalização de uma transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, bem como as críticas ao futuro líder da China (o principal parceiro comercial do Brasil) podem se mostrar problemáticas para o país. país nas suas relações com o gigante asiático e também com os países árabes. Em relação às questões ambientais, nas quais o Brasil passou a agir com desenvoltura, especialmente a partir do ano 2000, e para ser um importante agente internacional, o novo governo já vem impondo retrocessos. O governo Temer, recebendo o pedido do novo governo, comunicou a retirada brasileira das negociações para sediar a cúpula da ONU sobre mudanças climáticas em 2019.

O meio ambiente, as relações com os temas indígenas (o novo presidente é contra a demarcação de territórios indígenas), questões relacionadas aos direitos das minorias apontam para outros contratempos. A visão ambiental do novo governo parece remeter à ditadura, que via a floresta amazônica, por exemplo, como um obstáculo a ser removido para beneficiar o desenvolvimento do país. A nova ministra dos assuntos “Mulher, Família e Direitos Humanos”, pastor evangélico, já se posicionou contra o aborto e defende que as mulheres voltem às tarefas domésticas, cuidando das crianças, considerando o trabalho fora de casa como um incômodo. Em questões educacionais, um acadêmico ultraconservador nomeado Ministro da Educação pretende avançar as diretrizes da “Escola Nonpartisan”, uma agenda autoritária que visa destituir os professores de seu direito constitucional de expor suas visões políticas em defesa de uma suposta “neutralidade” ideológica no país. Sala de aula. Na verdade, o objetivo é silenciar os professores com uma visão crítica das desigualdades e injustiças, um traço comportamental da esquerda. O próprio presidente eleito gravou um vídeo incentivando os alunos a relatar professores “ideológicos”, filmando-os com celulares. Esse tipo de macartismo será um teste para as instituições brasileiras, especialmente o Supremo Tribunal Federal, o guardião da Constituição. O Judiciário e o Ministério Público serão testados no próximo governo, que tem inclinações autoritárias, a começar pelo presidente. Ambos, em associação com a grande imprensa, contribuíram para a desestabilização política no Brasil nos últimos anos, com a seletividade de suas ações para o então partido no poder, o Partido dos Trabalhadores, e na execução de um “espetáculo-justiça” vingativo. ”Com ampla cobertura da imprensa, geralmente sensacionalista, e vazamentos de investigações confidenciais para a mídia. A forma como as investigações de corrupção foram conduzidas, muitas vezes desrespeitando a lei e os direitos dos réus, causou danos a todo o sistema político – todos os partidos políticos tradicionais deixaram a última eleição menor do que eram antes. O partido de extrema-direita de Bolsonaro foi o que mais cresceu na câmara baixa do parlamento, aproveitando essa insatisfação.

Vamos testemunhar se as instituições resistirão a eventuais movimentos autoritários. A escolha do ícone principal da operação anticorrupção chamada “Operação Lava Jato” para o escritório do Ministério da Justiça indica que o padrão de ação nas instituições investigativas provavelmente permanecerá o mesmo. Na área econômica, o novo governo e a burguesia brasileira parecem estar empenhados em fazer cumprir a mudança liberal (que já foi muito prejudicial desde 2015, ainda sob o governo Dilma Rousseff, resultando em baixo crescimento econômico e retrocessos nos índices sociais), e rolar o que foi erguido durante o período desenvolvimentista (1930-1980), o período histórico com o maior crescimento econômico brasileiro, com um novo processo de privatização.

O Brasil não está sozinho no surgimento do radicalismo vindo da direita. O sociólogo alemão Wolfgang Streeck defende que o capitalismo precisa de instituições mais autoritárias para impor ordem diante do aumento da desigualdade. No entanto, o país, como é o caso de outros países em desenvolvimento, vinha reduzindo a desigualdade, mesmo com seu aumento no centro capitalista, que pode ser visto nos anos 2000. Com Bolsonaro, o que se espera é mais neoliberalismo. A que custo? O futuro dirá.